• Galeria Calixto 36

366 dias desenhando

SÉRIE CICLO – 366 formas de conter o tempo

POR ANTONIO ALBINO



NA ESTRADA

A criação dessa série surgiu no final de 2007 durante uma viagem de férias. Era madrugada, eu estava em um ônibus, sem sono e totalmente livre para deixar o pensamento fluir. Entre tantas coisas que passavam por minha cabeça, existia a vontade de voltar a desenhar, uma prática completamente abandonada naquela época. Queria fazer vários desenhos quando voltasse da viagem mas não sabia exatamente o que desenhar. Precisava encontrar um ponto de partida.

IMPULSO CRIATIVO

Minha irmã, que morava num sítio, certa vez me enviou uma carta contando sobre sua vida próxima à natureza, sobre o tipo de vegetação local que surgia, desaparecia, mudava de cor e provocava alterações incríveis nas paisagens durante as estações do ano. Anexadas à carta havia umas sementes muito interessantes, suas cores variavam entre tons de sépia, âmbar e vermelho. De imediato tive o ímpeto de fazer algo criativo com elas, mas essa vontade foi passageira. Como a ideia era encontrar um estímulo desafiador para voltar a desenhar, me ocorreu que, definitivamente, eu precisava colocar essa vontade em prática e desenvolver um projeto artístico a partir dessas lembranças.

ESTÉTICA

Atraído pelas cores e pelas formas esféricas daquelas sementes, continuei minhas divagações. Pensei nelas em contato com a terra, germinando, transformando-se em árvores, produzindo frutos, novas sementes caindo, germinando também e, por sua vez, fechando um ciclo. Uma circunferência poderia representar esse conceito, uma linha que sai de um ponto, faz seu trajeto e retorna a esse mesmo ponto. Parecia que tudo estava interligado, então decidi que todos os desenhos seriam circulares. Divaguei sobre essa figura geométrica, a invenção da roda, as engrenagens, os olhos, as lentes fotográficas, os planetas... E minha cabeça não parava.

POÉTICA

Pensava agora na terra, a matéria onde as sementes germinam, no planeta Terra e sua rotação responsável pelo dia e pela noite, na translação que repete-se há milênios e tornou-se nossa referência na contagem dos anos. Pensava nos calendários e nos relógios. Pensava na ilusão que temos de controlarmos o incontrolável.

Concluí que, na verdade, a chave do tema que eu estava buscando estava no tempo. É nesse fluxo contínuo que ocorrem os ciclos, aquelas tais transformações das sementes e das paisagens acontecem pela ação implacável do tempo. Mais que contar, nasceu alí um desejo de conter, pretensiosamente capturar, registrar graficamente um instante.

DURAÇÃO

Da mesma maneira que Auggie Wren, personagem de Harvey Keitel no filme Smoke (Cortina de Fumaça no Brasil), fazia um clique fotográfico cotidianamente no mesmo horário, na esquina da sua tabacaria, decidi também criar um desenho por dia. Seria interessante começar e concluir o trabalho em um período que caracterizasse um ciclo. Um ano me pareceu ser o tempo ideal. Era final de novembro, faltava pouco mais de um mês para que eu pudesse começar a execução do projeto em uma data “redonda”. Sendo assim, estipulei o início para o dia primeiro de janeiro de 2008, por acaso, um ano bissexto.

O FAZER

Da hora em que acordava até a hora de dormir eu tinha de produzir um desenho. Segui essa rotina à risca. Em nenhuma vez fiz dois ou mais desenhos para ficar adiantado, nem fiquei sem produzir um dia para fazer dois no dia seguinte.

O trabalho teve um caráter experimental, não me prendi a um fio condutor técnico ou estético além dos círculos. Na hora da produção, ou me deixava levar pelo estado de espírito do momento ou criava imagens a partir de alguma referência. Os estímulos visuais variavam, por exemplo, de um dia ensolarado ou chuvoso a uma simples vontade de usar determinada cor, de uma referência literária a um cenário de filme, de lembranças afetivas a fatos do cotidiano­­.

Um ritmo tão intenso que, em meados de junho pensei em desistir, mas seria uma pena abandonar o projeto que já estava quase na metade. Persisti e consegui concluir. Quando cheguei ao último desenho foi estranho, previ a sensação de vazio que viria depois, mas era 31 de dezembro, o propósito estava alcançado e o ciclo tinha chegado ao fim.


TÉCNICAS

Desenho, pintura, colagem, monotipia.

MATERIAIS

Nanquim, aquarela, guache, tinta acrílica, lápis de cor, lápis de cor aquarelável, grafite, papéis e tecidos para as colagens e caneta esferográfica.

SUPORTE

Papel Arches 300 g nas medidas 18,5 cm x 18,5 cm.

Antonio Albino

20/05/2020

Instagram: @antonioduasfontes

Os desenhos da Série Ciclo – 366 Formas de Conter o Tempo ficaram guardados por onze anos. A partir de 2019 começaram a ser digitalizados e impressos em fine art*. Hoje eles são expostos e comercializados na Galeria Calixto 36, clique aqui para ver as obras disponíveis.





A beleza está nos detalhes. É assim, sem abrir mão do belo e harmonioso, que Antonio Albino prepara suas obras. Designer gráfico e artista visual, começou sua trajetória artística ainda na adolescência, quando se apaixonou pelas cores e formas.




*Impressão fine art é o processo de transferir fotografias, pinturas, artes digitais ou digitalizadas para papéis e outras mídias de qualidade. Esse processo requer um gerenciamento rigoroso dos equipamentos e dos insumos utilizados, além de atenção de cuidados especializados. Além disso, ainda há a preocupação com a durabilidade das impressões, pois se a obra de arte se deteriorar rapidamente, perderá seus aspectos originais.

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