• Galeria Calixto 36

A arte e o luto

POR LUISA CLAUSON


Morte. Perda. Dor.

Esses três sentimentos apadrinharam meu crescimento na adolescência, na forma de depressão e uma doença crônica que, na época, era invalidada pelos médicos como uma loucura, manha ou apenas “ser mulher”.


A arte ainda não tinha este nome para mim, mas era um bote salva-vidas para uma criança constantemente à beira do afogamento. Eu pintava com qualquer material que encontrasse, desenhava com o que tivesse às mãos e escrevia todos os dias. Expressar o que eu sentia era tão natural quanto respirar e manter este material oculto também. A sociedade me moldou como moldou a todos nós. Me fazendo acreditar que eu era a única a passar por tanta dor em um universo perfeito. A arte me abraçou em meio a essa solidão, e então eu cresci.



Com o crescimento veio o cansaço e a impaciência, um basta em tudo de ruim que eu sentia. Antidepressivos para aplacar a tristeza, o pânico e o buraco existencial que até então acreditei que só eu sentia.


Apagar aquilo que nos impacta negativamente é apagar parte de nós, como eu aprendi. Sem o vazio não havia o cheio e, sem o cheio, não havia eu, não havia a arte.

O ápice do meu bloqueio foi no falecimento de meu avô. Ele era um artista não-nomeado, marceneiro e apaixonado por cinema. Uma grande perda para o mundo, principalmente o meu. Com ele, morreram meus poemas e meus desenhos. Morreu a fotografia como eu conhecia naquela época. Morreu tudo o que eu sabia sobre dor e renasceu um grande nada, que durou 5 anos. Até vir o segundo baque.


Quando fui diagnosticada com endometriose, aos 25 anos, entendi que não estava louca. Toda a dor que eu sentia era real, e este processo foi importante para aprender que a dor e a perda são cruciais para viver. Neste momento a arte estendeu sua mão para mim e voltei a me expressar através dela.


Por alguns meses, refleti sobre meu processo criativo e como apresentá-lo para quem quer conhecer meu trabalho fotográfico. Seria anti-climático dizer que as ideias apenas surgem na minha cabeça e eu as produzo. Olhei para trás e vi que todas as ideias foram plantadas há anos, podendo colhê-las somente agora quando me abri para aceitar a finitude da vida.


Quanto mais eu fotografo, mais eu entendo a necessidade de falar sobre morte, sobre luto. Pois entendi que são sentimentos universais e, ainda assim, tantas pessoas se sentem sozinhas e abandonadas. O vazio se estende por meus braços até minha câmera e se retrata de forma desoladora, mas também busca oferecer conforto para quem sente o peso do sofrimento.



Quando planejo um ensaio fotográfico, consigo guiar algumas diretrizes como o figurino a ser produzido, a modelo a ser fotografada, a maquiagem, o local. Esses itens servem de base para que, chegado o dia de fazer as fotos, meu coração fotografe o enquadramento mais propício para os sentimentos inomináveis que quero retratar.

Eu costumo dizer que é uma associação de palavras abstratas, cada clique levando a outro clique, mais próximo daquilo que quero retratar, até encontrar a imagem que tenha o peso ideal para determinada emoção.


O meu ensaio favorito foi realizado com a modelo Andreza Aguida e dele surgiu uma série que fala sobre memórias perdidas e o vazio que a ausência do outro (e de si) deixa em nossas vidas. Abaixo deixo uma imagem para exemplificar a associação de “palavras” para chegar no resultado, que é o retrato “O que restou”.



A interação inicial com a cadeira foi uma escolha estética, para remeter a ideia de algo antigo. A forma solta que o vestido se comportou no corpo da modelo, junto de sua performance como artista contemporânea, somados ao vazio da cadeira, deram voz ao sentimento de perda, e também à expectativa de que algo deveria ocupar aquele vazio.


A luz unilateral é uma assinatura minha, uma lembrança de que a luz e a escuridão devem sempre coexistir. Assim como o espaço negativo, presente neste e em outros retratos, que busca reforçar a sensação incômoda que a imensidão sem interrupção do vazio pode criar dentro de nós.


O toque final da edição, que levanta o questionamento se é uma fotografia ou uma ilustração, tanto nesta imagem como em outras, surgiu das minhas veias com o desenho e também busca informar ao espectador que não importa. A arte é uma forma de transcender as limitações da realidade através do campo imaginário, de transformar aquilo que é insuportável em uma linguagem transbordante, porém suportável.


Agora, mais do que nunca, acredito ser crucial poder transitar por entre os mundos da realidade e da ficção e lidar com tantos sentimentos não resolvidos dentro de nós. Poder falar abertamente sobre a perda, a escuridão e o vazio, usar da arte para criar esta conexão para lidar com o luto coletivo que estamos vivendo.

Lembrar que o vazio se encontra aqui e a tristeza também, nos mostra que somos humanos, somos reais e temos uma infinidade de sentimentos, tanto ruins como bons. Perceber a escuridão nos faz lembrar que existe luz e então buscar o caminho para ela. Para que daí possa vir a força do renascimento.

Deste ensaio nasceram também os retratos “O que restou”, “Pesadelo”, “Ruptura”, “Explorer” e “Deep Down”:

As imagens desse post e outras obras da artista Luisa Clauson estão disponíveis para venda aqui na Galeria Calixto 36, clique aqui para ver todas.



Luisa busca, em seus retratos surrealistas, respostas para as perguntas: O que dói? O que traz prazer? Utiliza da fotografia, artes plásticas e edição digital para traduzir o que é difícil de entender a olhos nus.

Leia outros textos de Luisa no blog da artista.

43 visualizações

Posts recentes

Ver tudo

GC36

SOBRE | ARTISTAS | BLOG36 | PARTICIPE

POLÍTICA DE TROCA E REEMBOLSO

POLÍTICAS DE PRIVACIDADE E TERMOS DE USO

FALE CONOSCO

galeriacalixto36@gmail.com

Acompanhe nossas novidades

e bastidores nas redes sociais

Cadastre-se para receber nossas notícias :)

  • Black Instagram Icon
  • Black Facebook Icon

Praça Benedito Calixto, 36 - Pinheiros, SP
CNPJ 34.708.280/0001-09