• Galeria Calixto 36

Estudos tridimensionais

| Papel machê e variações |

POR REBECA BORGES



Esse projeto é um processo ainda em andamento, o começo de um estudo que ainda vai evoluir. O que eu quero é conseguir descobrir as possibilidades dentro da técnica do papel machê e ver onde consigo chegar com ela.


Neste primeiro estudo, foquei na produção de cabeções que poderiam ou não ter acessórios e elementos ornamentais. Comecei com esse tema porque achei que seria no mínimo divertido confeccionar cabeças gigantes! Decidi deixar os formatos e cores livres, para que tomassem forma sem um super planejamento e o processo me levasse organicamente ao resultado e a poética da peça nascesse ao longo da criação, levando à um resultado único para cada cabeça, em que se criaria um universo específico que contasse a história dela.


Documentei todo o processo com o objetivo de compartilhar com o mundo essa aventura criativa e o que aprendi pelo caminho.


Essa ideia surgiu de uma paixão antiga por objetos e esculturas. Sempre tive fascínio por barro, argila, cerâmica, potes e cumbucas trançadas de folha e palha, madeira e mais recentemente o concreto, que se mostrou muito versátil e agradável esteticamente.


Minha trajetória sempre foi fora do ambiente institucional e muito empírica, passeando dentro da cultura popular e de brincadeiras que nasciam em casa. Meus pais foram muito presentes nesse sentido lúdico de inventar atividades que faziam muito mais uso da criatividade e da ressignificação de materiais do que de dinheiro e conhecimento técnico. Eles são artistas e artesãos que não seguiram carreira, viraram professores que, no fim das contas, são artistas que usam todos esses elementos para educar os outros. Minha retomada artística diz muito sobre esse resgate da infância e talvez por isso tenha um lugar tão afetivo.


O papel machê é parte desse resgate que surgiu agora por ser versátil e cheio de possibilidades. O que mais me chamou a atenção para essa técnica é que qualquer um pode fazer, é divertido e pode gerar objetos diversos. Sejam eles utilitários ou estritamente artísticos.


O empapelamento surgiu no século XVII em Veneza. Artesãos, ao prepararem as famosas máscaras de Carnaval, usavam essa técnica que, já naquela época, dividia espaço com o papel machê para a produção dos adereços. O papel machê foi desenvolvido na China aproximadamente no século II A.C.. Além de inventarem o papel, os chineses foram os primeiros a utilizar sua polpa, inventando a massa do machê, para moldar capacetes de guerra. Porém, foram os artesãos franceses que iniciaram a sua utilização para fins artísticos, daí a criação do seu nome (papier machê = papel mastigado).


A história dessas técnicas diz muito sobre reaproveitamento e sustentabilidade, que podem tanto ser exploradas por um viés ideológico ou simplesmente pela necessidade. Talvez por isso tenha surgido a ideia de mexer com o papel machê, já que enfrentamos um período de escassez de possibilidades por conta da pandemia.



PASSO 1 / ESTRUTURA


Para confeccionar as cabeças, foi necessário construir uma estrutura para servir de 'esqueleto' da peça. Essa estrutura foi feita de papelão com o auxílio de uma pistola de cola quente para unir os pedaços (um detalhe que faz diferença é perceber como utilizar bem a direção das 'fibras' do papelão para facilitar a dobra).


É muito importante pensar no tamanho e formato de cada recorte para poder construir algo que seja proporcional no fim. Na internet, você encontra moldes prontos de vários objetos para baixar e imprimir. Eu construí a partir da foto de referência de uma máscara oversize de um artista oriental que faz esculturas de papelão maravilhosas. Comecei pela parte da frente e passei para a parte traseira da cabeça, que me trouxe desafios para modelar um círculo.


Testei muitas maneiras, montei e desmontei zilhões de vezes e ainda assim não saiu uma cabeça exatamente proporcional. Percebi que é muito importante ter um cuidado atencioso na hora de fazer essa estrutura, pois mesmo modelando depois com a massa de machê, a dimensão e relevos (sobras de cola também!) do rosto ficam por conta desse primeiro molde.



PASSO 2 / EMPAPELAMENTO


Quando finalizei a estrutura, quis deixar ela mais sólida e resistente. Pensando nisso, preparei uma mistura de cola e água para molhar tiras de jornal. Essas tiras foram usadas para criar uma camada dentro e fora da cabeça como se fosse realmente um revestimento muscular.


Gosto de pensar em noções de anatomia na hora de criar peças que imitam o corpo humano, pois seguir um passo a passo lógico de composição de camadas, como ossos, músculos e pele facilita o processo, principalmente se estamos construindo do zero. O jornal é muito importante para nivelar o papelão e cobrir buracos e imperfeições naturais desse material. É essa técnica que se chama empapelamento.


Depois de concluída essa etapa, é extremamente importante deixar que a peça seque de um dia pro outro, lembrando que a quantidade de água usada nessa mistura com a cola vai interferir diretamente na maleabilidade do papelão, portanto, não deve colocar muita água.


Outro ponto importante é onde apoiar a peça para fazer a aplicação do jornal. Eu fiz esse processo no chão apoiando a cabeça sobre o colo, fazendo com que (pelo excesso de água) a parte esquerda do rosto ficasse ligeiramente deformado se comparada ao outro lado.



PASSO 3 / MASSA


Depois de completamente seca, vem a etapa da massa que pode ser feita de mil maneiras, existem muitas receitas disponíveis na internet. Usei uma base de papel higiênico (ao total 4 rolos de papel macio de folha dupla) desmanchado em água com a adição de uma tampinha de água sanitária, para ajudar na conservação da peça a longo prazo. Esse papel depois de desmanchado, precisa ser coado e torcido em pano permeável para criar uma espécie de farofa, que também precisa ser desfiada o máximo possível pois é isso que vai criar uma massa homogênea e macia.


Depois, se faz um mingau que leva uma colher de farinha de trigo para dois copos de água por receita, nesse caso utilizei duas receitas, já que foram quatro rolos de papel (cada receita serve para dois rolos). Em seguida, levei essa mistura ao fogo até obter uma textura mais encorpada. Quando engrossar é só desligar o fogo e deixar esfriar e misturar tudo! Nesse momento usar as mãos é indispensável para alcançar o ponto perfeito (como uma massa de pão).



PASSO 4 / APLICANDO A MASSA


Após a massa pronta, é só aplicar na peça e ir modelando pra chegar no formato que queira. Essa parte é, sem dúvida, a etapa mais divertida de todo o processo já que é aí que tudo tomará uma forma mais definitiva.


Podem ser usadas apenas as mãos ou utensílios que auxiliem o processo. Esses materiais variam de acordo com a necessidade, de modo que existem no mercado espátulas específicas para ajudar na modelagem, porém colheres, lápis e palitos cumprem a função muito bem.


É nessa hora que surgem as possibilidades de construir texturas e formatos sobre a base. É possível até misturar areia ou cascalho dentre outros materiais para obter texturas malucas. Quando a peça estiver completamente modelada, é preciso deixar secar o quanto for necessário até que esteja bem firme. A peça pode ser posta para secar ao sol ou em ambiente arejado abrigada de luz. Percebi que podem surgir rachaduras nessa etapa pela desidratação massa, talvez por uma superexposição ao sol e/ou má modelagem da peça.



PASSO 5 / ACABAMENTO


Com a peça seca, comecei a fazer o acabamento. Nessa etapa, a criatividade traz novamente um enorme leque de possibilidades! É possível aplicar não somente cores, mas adereços e enfeites. Essa é uma parte importante da criação da narrativa, ou seja, da história que essa obra irá contar através de seus elementos visuais.


Para essa cabeça quis trazer texturas, então fiz um grande chapéu de papel kraft amassado que foi depois pintado com spray laranja.


A arte de manusear papel machê é livre e fantástica. Pode ser utilizada para criar objetos com infinitas finalidades. Pode inclusive ser levada ao ambiente escolar como complemento educacional através da brincadeira e do contato com a massa, papéis e cores, pois fornece campo fértil para o trabalho da coordenação motora, da lógica e da criatividade!


O resultado desse primeiro contato com os materiais e técnicas fez nascer ideias que com certeza farão nascer outros projetos. Além disso, tenho percebido o quão importante é poder interagir com a peça por dias seguidos, dando espaço pra que fluam as inspirações que vão me guiar dentro desse processo. O resultado me deixou feliz e me dei conta de que minhas pesquisas de referências visuais recentes foram traduzidas nessa obra de maneira quase que inconsciente.


Também me encontrei tendo muito mais satisfação no processo de criação e produção do que com o resultado em si. O que trouxe muitas reflexões sobre o que é arte, e por meio de conversas com amigos e auto-observação entendi que a arte é sobre processos e trajetórias e não apenas sobre resultados. Pode ser óbvio pra muitos, mas foi um grande passo pra mim!



Rebeca Borges é idealizadora do Atelier Venta, um espaço de criação livre que explora técnicas mistas, materiais diversos e plataformas variadas com o objetivo de trazer à luz tanto seu trabalho solo quanto parcerias desenvolvidas com outros artistas. A multiplicidade é o fio condutor de sua arte. 

Veja os trabalhos da artista disponíveis para venda, clicando aqui.

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