• Galeria Calixto 36

Expressões da quarentena

Convidamos 7 artistas para expressar sentimentos e reflexões gerados pelo isolamento através de texto, ilustração, poema e fotografia.



Além do que se vê

POR FERNANDO NAS


Há um universo inabitado em nós.


Nos deparamos com a limitação de observar o mundo exterior e a quase obrigatoriedade de olhar para dentro. É tempo de (re)descobrir o que há adentro de nossas janelas.


A cidade vazia não assusta tanto quanto a aglomeração de pensamentos.

A mente não aquieta. Incertezas, ansiedade e insegurança se misturam com uma nova força que ergue uma nova base psíquica. Aprendemos a solitude. Estávamos isolados de nós mesmos. Deixamos nossa essência em pausa enquanto miramos outros horizontes.


Mautner diria em Lágrimas Negras: Belezas são coisas acesas por dentro, tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento.


Fernando Nas volta sua arte para a representatividade, a visibilidade de minorias, o auto-cuidado e a empatia. Essas e outras obras do artista estão disponíveis para venda, clique aqui para ver todas.




Humanos ou borboletas?

POR HELENA DE CORTEZ


Fica em casa – me disseram. Pela nossa saúde. Pela saúde do outro. É tempo de voltar para casa. Se recolher. A experiência tem sido diferente para cada um de nós. São tantas casas quanto pessoas. São tantas realidades quanto humanos. Como tem sido o seu ficar em casa?


Confesso que sinto essa convocação há alguns anos. Esse movimento já começou há algum tempo para mim. Deixar o trabalho registrado e me assumir artista profissional. Sair de um apartamento e mudar-me para uma casa. O home office não foi novidade. Meus filhos não estudavam mais em horário integral. Minha travessia de volta para casa já vinha acontecendo.


E a casa, a qual me refiro, é muito mais que essas paredes e esse teto. É nosso corpo, nossa morada. Nosso limite de troca com o mundo. Estamos todos em nossos casulos. Alguns se nutriram mais enquanto lagartas. Alguns experimentaram plantas de muitas espécies. Muitos de nós dispersos com o excesso de ruídos do lado de fora. Lagartas cansadas, correndo de um lado para o outro. Sem tempo de se alimentar. E, de repente – ou nem tão de repente assim – , estamos fechados no nosso casulo, na nossa crisálida. E precisamos parar.


Pausa.


E mergulho.


Limitados por nossos casulos ainda podemos optar: olhar pra fora, ou finalmente, olhar para dentro. Curtir o recolhimento. Rever valores. Rever prazeres. Ver e reconhecer – talvez pela primeira vez – o quanto ser humano é algo tão pessoal e tão coletivo. Ao mesmo tempo. O quanto de nós só reconhecemos com o espelho do outro. E você? Quando chegar o momento de sair, como será sua borboleta? Pronta para voar?


Helena de Cortez faz uso da arte como uma extensão de si mesma, transmitindo sentimentos através da fluidez de suas pinceladas. Essa e outras obras da artista estão disponíveis para venda, clique aqui para ver todas.



Sentimentos da quarentena

POR FELIPE MARQUES


Acredito que, para a maioria dos artistas, é impossível atravessar por esse período de pandemia sem que toda essa situação atípica – pra dizer o mínimo – não reflita direto nas nossas criações.


Desde o início da quarentena, experimentei emoções distintas e inúmeros sentimentos intensificados com o fato de estar isolado, longe dos amigos, da rotina e das distrações diárias.


A melhor forma que encontrei para lidar com o isolamento foi externar meus “devaneios quarentenescos” no papel. As vastas emoções originaram inúmeras séries de ilustrações digitais e colagens. Dentre elas a série “Sentimentos da quarentena”. Cada obra é uma passagem por esse cenário tão caótico e imprevisível:


ISOLADA

A primeira obra na quarentena. Representa estar em casa, estar seguro, se sentir protegido, quase de volta ao útero. O único lugar onde o caos da pandemia não podia me alcançar. Ficar em casa sem a pressão de produzir, sem as cobranças diárias, sem as interferências externas. Estar em casa e, ao mesmo tempo, dentro de si mesmo. Um momento de introspecção, de viver seu universo particular, de fazer as pazes com os projetos passados, de retomar o livro abandonado, de aprender a cozinhar, de se cuidar e se mimar. Estar e permanecer em casa sem culpa. Estou em casa ou estou me tornando minha própria casa?


EU TO BEM!

Quantas vezes a gente já se fez essa pergunta esse ano? Quantas vezes tivemos que dizer em voz alta “eu estou bem” pra tentar nos fazer acreditar? Estar em isolamento nos faz questionar: Será que a gente tá bem? Cem pessoas morreram, mas eu estou bem. Agora são mil, seis mil, dez, vinte... Não vou mais contar, não vou mais assistir o noticiário. Pandemia, desgoverno, crise política, crise ambiental, ditadura... Quando teremos coragem pra perceber que não estamos bem? Ainda assim a gente sorri, a gente ignora o luto que nos foi privado, a gente finge, a gente vive, a gente se engana. Eu to bem.


SILENCIADA

Fala sobre o momento de ruptura. Quando a gente se dá conta que não restou mais nada. Nos foi tirado tudo, deixando apenas a letargia. O ano que nos desgastou a ponto de tirar de nós a vontade de gritar. Frustração e impotência. 2020, um eterno modo de espera, a calmaria que precede o fim. Um dia igual ao outro, igual ao outro e ao outro.



Felipe Marques trabalha com colagens digitais e analógicas e ilustrações digitais. Essas e outras obras do artista estão disponíveis para venda, clique aqui para ver todas.




Memento Mori

POR LUISA CLAUSON


Esta obra nasceu durante a quarentena, fruto do impacto direto da nossa consciência sobre a mortalidade. Diante de um número tão grande de mortes, tão repentino, nos encontramos face a face com a nossa própria efemeridade e nem sempre essa jornada é uma jornada feliz. Muitos entram em negação e tantos outros abraçam a condição de pulsão de morte que vivemos, e ambos são a mesma face da moeda: o desejo de viver. Esta fotografia foi feita em colaboração, à distância, com outras artistas, como a Ana di Castro, que modelou e também fotografou e deu a voz dela à parte da edição e a Cindy Monteiro, maquiadora e artista de efeitos especiais, que esculpiu o coração. O resultado nos mostra que é necessário ter um equilíbrio entre a vida e a morte, e me ajudou a perceber que, mesmo diante do caos que vivemos, mesmo isolada em casa, não estou sozinha, pois a arte conecta, e a comunidade artística sempre irá se apoiar, não importa a distância.


Luisa Clauson utiliza da fotografia, artes plásticas e edição digital para traduzir o que é difícil de entender a olhos nus. Veja as obras da artista que estão disponíveis para venda, clicando aqui.



Música, amor e poesia

POR THIAGO MORAIS


Dissipou-se

sumiu da vista

mas ainda sentia o cheiro

sumiu da vida

mas minha memória ainda me recordava

impregnava minha mente

assim como o cheiro impregnava

minhas vestes e meu corpo

ainda sentia na pele o calor

meu coração batia em ardor

meus olhos lacrimejavam

minha respiração era dificultosa e

ansiava ar puro

ainda assim sonhava todo dia

quanta fumaça

aquele grito de alerta

me chamou a atenção

escoava da alma

a vida corria perigo

tamanha seria a selvageria

viver uma vida sem graça

gritei: MÚSICA, AMOR E POESIA!

do resto já basta

(Poesia presente no livro Fragmentos de Solitude, 2019)


Em 2014, quando escrevi esse poema, eu não estava isolado como hoje, mas estava igualmente desiludido, me sentindo frágil e vulnerável, confuso com a situação do país após as Jornadas de Junho de 2013, sem perspectivas em relação ao trabalho e precisando terminar uma graduação com licenciatura em música, na qual sofria de amor e ódio.


Eram muitas dúvidas e incertezas e, com isso, me agarrei à arte, mais especificamente à poesia. Foi uma fase bastante produtiva em termos de escrita. O celular estava sempre próximo para poder digitar em um bloco de notas os versos que vinham à mente das agonias, dela própria. A mente fervilhava tanto que, às vezes, se não registrasse de alguma forma, não conseguia dormir. Pra mim, era uma forma de externalizar todos esses sentimentos e de tentar entender o que acontecia com o mundo e comigo mesmo. O impulso da poesia me renovava o pulso.


De certa maneira, a arte sempre foi esse lugar onde me sento à vontade para me testar, me desafiar, me conhecer, me questionar e duvidar de mim mesmo tentando me reconstruir. Um lugar onde eu posso me perder e me achar, recuperar as energias, ter um pouco de esperança e sonhar uma realidade diferente.


Relendo esse poema, vejo que muitos dos sentimentos que o inspiraram, mesmo que por motivos diferentes, estão de volta, mas não apenas em mim. Com a pandemia e o isolamento, esses sentimentos afloraram em todos. As desilusões, as fragilidades e vulnerabilidades, as dúvidas e as incertezas.


Como uma ferramenta que nos possibilita resistir, mais uma vez recorro à arte. Naquela época, ainda não me aventurava com tanta seriedade à pintura, mas hoje, é nela que me descarrego e me reconecto. A música e a poesia sempre estarão presentes e, juntando-se a elas, as artes visuais.

Em momentos como esse, a arte se mostra tão essencial e necessária quanto um alimento, seja para aqueles que a produzem, como para aqueles que a consomem.


Como revigorar a mente e nos dar possibilidades de contestar realidades impostas e de imaginar realidades melhores de vida sem a arte?

Eu diria que, se não impossível seria viver sem arte, no mínimo, seria algo completamente sem graça.


Thiago Morais cria obras onde faz o processo de se encontrar através da tinta. Conheça as obras do artista que estão disponíveis para venda, clicando aqui.



Fica em casa

POR FLÁVIO GUIMARÃES


Desde o início da quarentena, já havia percebido que, para preservar a mim e aos meus, teria que modificar toda a rotina do “velho normal” para tentar sobreviver a essa loucura que está sendo a pandemia.


Sem perspectiva de um retorno, com o estúdio de tatuagens fechado, a paternidade pra chegar ainda esse ano, além de todas as problemáticas que um funcionário de carteira assinada vem enfrentando nesse período, o único remédio tem sido a arte. Consumir e produzir estão em prioridade para se manter são.


Foi daí que a série de ilustrações “Fica em Casa” foi surgindo, com o intuito de registrar a necessidade de se manter em tempos de pandemia, direcionada para aqueles que têm o privilégio de um teto e que podem ficar em casa, que desse privilégio abusem.

Flávio Guimarães cria ilustrações detalhadas, com traços finos dotados de padrões, pontilhismo e geometrias. Essas e outras obras do artista estão disponíveis para venda, clique aqui para ver todas.



Sketches do fim do mundo

POR JOÃO PADULA


Em 2020 nosso mundo parou, literalmente! Foram impostas diversas restrições de circulação e contato. Praticamente trancafiados em casa, o que nos restou foram os meios digitais e virtuais.


Vivemos o que parece um entretempos, entre esse mundo que deixamos logo ali por março e para esse mundo futuro que ainda parece rascunhar-se.

Tal momento levou a uma série de questionamentos e movimentos de todos nós, como um processo de luto coletivo. É preciso deixar certo mundo para trás, poder pensar no possível aqui e agora, e lidar com este futuro ainda por vir e que muitas vezes nos parece saído de uma distopia escrita por George Orwell.


Certamente não sairemos desse momento os mesmo, nem no um a um, nem como coletivo. Nas ruas e nas redes já se travam as disputas políticas e econômicas sobre os possíveis futuros, sobre o que será esse "novo normal". Novos cálculos sobre as distâncias físicas e sociais, novas provas às frágeis democracias que galopam em suspiros. Parece-me não só uma crise sanitária que colocou impasses políticos e econômicos, mas que nos coloca a reinventar a circulação dos afetos entre as pessoas, os circuitos sociais e os laços. 


Nisso parei de produzir, simplesmente nada me vinha, deixei pra lá algumas telas e pinturas maiores nas quais vinha trabalhando. Nenhuma ideia, só me via atropelado pelas notícias, números, informações, discussões e lives. Esse excesso que foi produzido em nós, como se fosse isso tudo ao mesmo tempo, junto, misturado, ao quadrado, dividido, somado, subtraído, multiplicado, equacionado.


Então decidi fazer costuras, rápidas, que não me exigisse nada além de uma caneta e um papel. Passei a fazer rascunhos rápidos do que me vinha à cabeça e de imagens que via por aí. A cada uma eu misturava uma frase, do que lia, via ou ouvia. nem todas se encaixavam, às vezes pareciam remendos. Mas aí foi, páginas e mais páginas, uma produção constante sobre isso que atropela e que, por enquanto, ainda não pôde ganhar lugar. Dessa costura, nasceu essa brincadeira que decidi batizar de Sketches do fim do mundo.


João Padulo tem se refugiado no ato de retratar cenas e pessoas de forma simples, mas carregada de afetos. Conheça as obras do artista que estão disponíveis para venda, clicando aqui.

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