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Protagonismo

POR TELURICA.X


Me chamo Letícia Ribeiro, tenho 27 anos, e Telurica.x surgiu da necessidade de expor meus trabalhos pessoais de fotocolagem.


Sempre soube que a arte guiaria minha vida. Quando criança não passava um dia sem rabiscar uma folha. Amava desenhar e com certeza achava que seria desenhista ou pintora. Ou pelo menos sonhava com isso.



Na pré adolescência, foi a escrita que tomou espaço. Nunca fui fã de ler, mas sempre adorei poemas, achava incrível porque tinham ritmo! 

Muito provavelmente a forte ligação que também sempre tive com a música, principalmente o rap, serviu de influência para que eu passasse a utilizar desse tipo escrita para externalizar o que eu pensava e sentia.

Quando terminei o colégio, decidi que faria letras, mas o ensino público no Brasil é falho e eu não havia adquirido base o suficiente para prestar uma prova em uma universidade pública, então fui fazer cursinho, mas mesmo assim não passei na prova e, claro, me senti péssima. Achei que não era inteligente. Nessa época não pensava que existem múltiplas inteligências e que passar numa prova de vestibular não prova nada e não faz ninguém melhor que ninguém.


Eu tinha 18 anos e não estava mais enxergando a possibilidade de fazer faculdade, então fui trabalhar. Fui garçonete, vendedora, estoquista, entregadora de panfleto, manicure, barista e mais outras dezenas de coisas. Mas a vontade de estudar e fazer algo relacionado à arte continuava a bater na minha porta. Eu precisava ter um propósito. 


Prestei uma prova em uma universidade particular e consegui uma ótima bolsa. Pensei em fazer artes plásticas, mas a única unidade que possuía esse curso ficava muito distante, e, por falta de opção e um acaso do destino, decidi que faria design. 

Foram 4 longos anos, mas me formei em design digital em 2019 e, no mesmo ano, saí de um emprego que eu já havia conseguido nessa área e que me deixou com uma baixa estima enorme.

A área de design, assim como de arquitetura e artes em geral é predominantemente ocupada pela burguesia. A estética, a linha de pensamento,

as referências que essa área exige, partem de um ponto de vista que pra mim

soava muito distante, e de certa forma me agredia, não sentia que fazia ou que poderia fazer parte daquele ambiente. Na verdade, eu não queria. Eu não me via ali.


Cresci em Itaquera, zona leste de São Paulo, filha de pais separados, morava com minha mãe. Eu praticamente não sabia o que eram as áreas centrais da cidade até me mudar aos 15 anos. Minha mãe ganhou um processo trabalhista e com o dinheiro mais economias de uma vida realizou o sonho de comprar um apartamento na Vila Madalena, para não ter mais que fazer um trajeto de 2 horas pra conseguir chegar ao trabalho, o que ela já fazia a mais de 30 anos.


Sair da zona Leste e ir para a Oeste com 15 anos foi com certeza um choque e um momento da minha vida onde me senti um peixe fora d'água, bem no período

do colégio onde muitas vezes nos sentimos deslocados e numa época em que ser periférico não era "cool". Por outro lado, estava morando em um dos bairros com mais acesso à cultura e informação da cidade, o que expandiu muito os meus horizontes, principalmente em relação a arte.


Por que a estética, a linha de pensamento e as referências do que é  considerado belo não podem partir do ponto de vista das minorias?

As vivências que temos moldam o nosso olhar perante o mundo e, tendo essas vivências, trabalhar em um estúdio de design na Oscar Freire começou a me parecer algo sem sentido. Pra que e pra quem eu estava trabalhando? 

Pra mim, a necessidade do propósito sempre falou mais alto que a necessidade de ganhar muito dinheiro. Queria fazer algo que tivesse relevância para mim e para quem tinha vivências parecidas com as minhas. Queria que o olhar dos menos favorecidos socialmente também pudesse ser mostrado e aceito.


Por que a estética, a linha de pensamento e as referências do que é considerado belo não podem partir do ponto de vista das minorias?

Em torno desses pensamentos, vontades e necessidades comecei meu trabalho

com colagem digital, buscando sempre enaltecer corpos e causas invisibilizados. Mulheres, Pretos, Mestiços, Indígenas, Nordestinos, Nortistas, Trabalhadores,

LGBTQI+, entre outros, adicionando influências contemporâneas e muitas vezes surrealistas.


Muitas das imagens são registros históricos, em preto e branco, de uma época em que essas pessoas nem eram consideradas parte da sociedade. Um dos acervos fotográficos que utilizo, tem diversas fotografias de africanos e afrodescendentes escravizados na época do Brasil Colônia. Nessas fotografias, não tem o nome e nenhuma informação dessas pessoas, apenas o lugar onde foi tirada a foto.

Quem eram essas pessoas? Qual o nome delas? O que faziam? Como viviam? O que viram? São as pessoas que vieram antes de nós, nossos ancestrais, que construíram e carregam esse país até hoje nas costas. Através das colagens eu tento, de alguma forma, ressignificar essas imagens pra esses que são nossos heróis e pra nós, que podemos nos ver neles.





" ...Tem sangue retinto pisado atrás do herói emoldurado,

Mulheres, tamoios, mulatos,

Eu quero um país que não tá no retrato..."


Samba Enredo Mangueira - 2019


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