• Galeria Calixto 36

Realidade Fluida

Quebrando a magia da série Realidade Fluida

POR LEANDRO WISSINIEVSKI



Antes de entrar na parte técnica, vou falar sobre o processo criativo e sobre as referências que estão por trás dos clicks nessa série.


Como disse Sebastião Salgado: “Você não fotografa com a sua máquina, você fotografa com toda a sua cultura”. Pode ser um clichê, mas não deixa de ser uma verdade.


Eu sempre gostei de observar a água como elemento físico. Movimentos, formas, cores, distorções óticas e reflexos. Desde criança adorava assistir a chuva. Aquele montante de água vindo com tudo e acertando a terra, dançando com o vento, criando pequenas correntezas cheias de mini ondas pelo quintal, carregando folhas e passando por obstáculos.


Já um pouco maior, fui pra área de engenharia e trabalhei num laboratório onde eu fazia ensaios hidráulicos para construção de barragens. Lá aprendi muito sobre a ciência da água. Só que melhor do que isso, eu aprendi a observar a água em seus detalhes, o laboratório exigia um olhar clínico que servisse à engenharia. Curiosamente foi o meu primeiro contato com uma câmera profissional, pois eu tinha que fotografar os ensaios, a água e seus fenômenos.


E mesmo bem antes de virar fotógrafo, tive mais interesse estético pela água quando eu assisti um episódio de A Supercâmera com o fotógrafo Martin Waugh, especialista em gotas. Aquele programa explodiu a minha mente, nunca tinha visto a água com tantos detalhes (aconselho dar uma olhada no trampo desse cara, é fantástico). E isso ficou guardado na minha mente por muito tempo. Num dia qualquer, comecei a brincar com a água em casa do mesmo modo que eu vi no programa.


Tudo consiste em um recipiente cheio de água, câmera no tripé, disparador e no meu caso uma iluminação traseira feita com flash. No início eu estava com a referência do programa muito fresca na minha mente e segui os passos estéticos do Martin Waugh, o foco dele é criar esculturas com a água.


Usei o flash direto nas gotas com uma luz mais dura, fundo do recipiente preto e o fundo do reflexo na água também. Fiz algumas experiências com exposições mais longas e flash de segunda cortina (consiste numa dessincronização do flash com o obturador: a câmera começa a captar a imagem e o flash dispara apenas no final, um pouco antes do obturador fechar de novo).


Os resultados são esses:



Parecia que eu estava fotografando joias ou diamantes. Com fundos escuros, tons pasteis lavados e foco nas formas.

Acontece que eu sempre fui muito ligado às estéticas sessenta e setentistas. Artes psicodélicas e surrealistas. E durante minha jornada nas fotografias de shows undergrounds, mais especificamente de Stoner Rock e afins, conheci mais artistas com essas influências. O estilo de som, as artes de ingressos, posters e camisetas, toda essa efervescência artística me influenciou muito. Então comecei a brincar com as cores.


Primeiro coloquei papeis coloridos atrás do recipiente com água, rebatia o flash neles de forma que fizesse um reflexo na água. E os primeiros resultados foram esses:



Pouca luz nas gotas, cores sólidas e chapadas e bastante forma.

Observei o potencial abstrato das cores e movimentos e levei meu foco nessa direção. Comprei um softbox e papel celofane de várias cores, assim eu aproveitaria melhor a luz que não seria rebatida e sim passaria pelo celofane e chegaria mais inteira na água. Esse formato me possibilitou controlar os tons e elevar o nível de surrealismo das minhas imagens, pois em muitas delas fica difícil saber se é uma pintura, arte digital ou montagem.


Não, não tem montagem no Photoshop. Até porque eu nem sei fazer isso. Todos os meus efeitos são práticos, a única coisa que faço na pós produção é o tratamento básico da imagem e no máximo eu altero um pouco os tons das cores. Como não tenho imagens de “making of” vou tentar quebrar a magia da técnica com algumas imagens que eu fiz no processo.


Esse é o pré-set. Sem gota nenhuma dá pra ver o celofane colado no softbox e as sujeiras na superfície entregam a presença da água. E na segunda imagem eu alterei tudo com um arame. Eu uso uma lente 70-300 que dá um efeito macro nas milimetragens maiores, além de aproximar os planos o que ajuda no surrealismo e na psicodelia das minhas imagens.


Nessa sequencia mostro como eu criei o efeito com gotas estáticas. O que eu fiz foi: com o pré-set a postos, coloquei um celofane amassado boiando na superfície da água. Depois, com uma pipeta, fui colocando cada gota onde eu queria dentro do quadro da câmera. Veja que no canto superior direito aparece um pouco da borda do recipiente. Arrumei tudo, coloquei mais umas gotinhas de detalhe e fiz o click final. Pronto: sem magia!


Fotógrafo autodidata, Leandro largou uma carreira estável na área de engenharia para se dedicar à experimentação fotográfica. Sua fotografia sofre influências constantes de suas experiências e por isso tem diversas facetas. Sempre com uma pitada experimental, o artista não tem medo de sair de zonas de conforto.

Clique aqui para ver as obras disponíveis.

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